Carta de Princípios do núcleo RC-SP

“… é preciso afirmar que há, no Brasil, muitos professores que dão sentido às suas vidas, dando sentido à vida das crianças e das escolas. Sinto-me um privilegiado por, após três décadas de trabalho numa escola que ousou provar que a utopia é realizável, encontrar no Brasil tanta generosidade e responsável ousadia.1

O movimento Românticos Conspiradores constitui-se de uma rede colaborativa formada por pessoas que militam pela transformação da Educação Pública2. Nossa finalidade inicial é a de promover a comunicação e o apoio mútuo entre pessoas, organizações e projetos que tenham por objetivo contribuir para a superação dos arcaicos paradigmas educacionais vigentes.

Somos pessoas conscientes de que os modelos educacionais e as práticas educativas possuem decisivas condicionantes sócio-culturais. Este fato exige que, para a transformação da Educação, tenhamos de ultrapassar seu âmbito restrito, englobando as dimensões sociais, políticas e culturais.

Temos a convicção de que a Educação atualmente praticada não contribui para que as gerações futuras tenham condição de superar os cruciais desafios postos para e pela humanidade. Mais do que isso, essa educação acaba por incentivar a formação de pessoas que tendem a reproduzir o modo de pensar, sentir, agir e viver que produziram tais desafios. Para que os atuais paradigmas educacionais possam ser superados é necessário estabelecer novas concepções que apontem formas alternativas de pensar, estruturar e praticar a Educação.

Tendo como síntese de nossa visão o trinômio autonomia-responsabilidade-solidariedade, apresentamos nossos princípios gerais, assim como alguns exemplos de seus desdobramentos educacionais. A finalidade é tanto orientar a ação dos membros da rede Românticos Conspiradores como esclarecer àqueles que queiram participar ou formar novos núcleos. São estes princípios que, a nosso ver, devem fundamentar a vital transformação da Educação, para que esta possa corresponder às necessidades das pessoas e das sociedades contemporâneas.

1. Educar para a Integralidade

A educação deve contemplar a humanidade dos educadores e educandos em sua totalidade, sendo coerente com a indivisibilidade das dimensões biológica, mental e espiritual de cada pessoa. Assim como cada ser humano possui diferentes limites, possui também diversas potencialidades que poderão, ou não, ser desenvolvidas e expressas a partir das formações e transformações que ocorrem durante toda a vida. Para isso a educação deve ser um processo intencional, contínuo e transformador, que leve a integralidade e que repercuta durante toda a vida.
Desdobramentos: educação integral3, transdisciplinaridade, currículo aberto, aprender a conhecer-fazer-conviver-ser, educação continuada.

2. Educar em Solidariedade

A educação é um processo relacional, possuindo um caráter social que deve ser assumido nas práticas educativas. A solidariedade, mais do que um objetivo ético a ser atingido, é uma condição primordial para a realização do trabalho educativo. Portanto, este só se desenvolverá plenamente se considerar e incluir as diversas relações entre todos os atores envolvidos: educandos, educadores, gestores, famílias e comunidades. No caso da escola, é indispensável que abra suas portas à comunidade, a fim de constituir-se em pólo integrador e irradiador do saber e do esforço social pela educação, também cabe a escola incentivar a integração dos agentes e espaços comunitários a esse mesmo esforço.
Desdobramentos: comunidade educadora, docência compartilhada, ensino-aprendizagem colaborativo, pedagogia de projetos.

3. Educar na Diversidade

A educação deve contemplar a originalidade e a criatividade das pessoas, valorizando a diversidade humana em todos os seus aspectos: físicos, psicológicos, culturais, etc. As práticas educativas devem ser coerentes com o fato de que as pessoas aprendem melhor segundo seus interesses e motivações, em diferentes ritmos e de diferentes formas. A noção de educação na diversidade, associada aos conceitos de integralidade e solidariedade, permite o reconhecimento tanto de nossas singularidades quanto das nossas igualdades, resultantes de nossas condições humanas e socioculturais. As diferenças, nesse contexto, devem ser consideradas como algo inerente ao ser humano, rompendo-se a lógica binária que nos fragmenta em “iguais” de um lado e “diferentes” de outro.
Desdobramentos: educação inclusiva4, pedagogia da escuta, ensino não seriado, grupos multietários, educação para a paz, pedagogia da autonomia, educação multicultural.

4. Educar na Realidade

A educação deve servir para a melhora objetiva da realidade na qual ela ocorre, contribuindo para o chamado desenvolvimento local. Para tanto, ela deve ser contextualizada, integrada à vida dos educandos e de suas comunidades, aberta para a troca de experiências e conhecimentos. A educação só possibilitará à pessoa atuar efetivamente na transformação da sua realidade se proporcionar condições de autotransformação. Em outras palavras, é somente através da promoção de aprendizagens significativas que a educação contribuirá para a transformação humana e social.
Desdobramentos: contextualização, extensão comunitária, ensino ativo, aprendizagem significativa.

5. Educar na Democracia

A educação que prepara para a democracia deve se dar através de práticas não-autoritárias, que permitam a ampla participação de educandos, dos educadores, das famílias e da comunidade. Só é possível uma educação para a ação cidadã se a educação for pela e na ação cidadã. As práticas educativas promotoras da liberdade, autonomia, respeito, responsabilidade, eqüidade e solidariedade devem estar associadas aos princípios anteriores para permitir que atinjamos o objetivo maior da auto-responsabilização social5.
Desdobramentos: educação democrática, não-coercitiva, educomunicação, protagonismo juvenil.

6. Educar com Dignidade

A dignidade específica do ofício do educador é derivada da dignidade reconhecida na pessoa do educando. O educador deve ser cônscio do seu importante papel como agente social, assumindo sua missão como tutor dos educandos e facilitador de suas aprendizagens, entendendo que a educação deve ser solidária e coletiva e a aprendizagem um processo de dupla-via – entre o educador-aprendente e educando-ensinante. O tão almejado resgate da autoridade e a revalorização social e profissional do educador passam, necessariamente, pela reformulação das formações iniciais, pela reflexão e atualização permanente das práticas educativas e, principalmente, pela constante busca da coerência entre o fazer pedagógico e as necessidades educacionais dos educandos, suas comunidades e das sociedades em geral.



Assinam esta Carta, assumindo estes Princípios

Adriana Aparecida de Castro
Albertina (Tina) da Assenção Madureira Rodrigues
Alberto (Beto) Samu
Alfredo Giorgi
Ana Alice Mendes Gois
Ana Maria Neves Campos
André Duarte Stábile
Angelo Lourival Ricchetti
Anna Cecília K. M. Couto Simões
Antônio Vidal Nunes
Camilla Duarte Schiavo Ritzmann
Candida Menna Barreto Mottecy
Carla Lam
Carlos Eduardo Terzini
Catiani Regina Aparecida Araujo
Clarete Zandrajch
Daniela (Dani) de Almeida Bittencourt Moraes
Davy Bogomoletz
Dora Incontri
Edna Aparecida dos Santos Domingos
Elaine M. S. Aragon dos Santos
Elaine Naldi Martins
Ellen Cristina de Paula Ortiz
Eloisa Ponzio
Erika Ribeiro Varonez Casarini
Fabrina Terezinha Falaguasta Barbosa Scaglia
Gumercindo (Guga) Rocha Dorea Filho
Helena Singer
José Oscar Ramos
José Resende Filho
Kely Cristina Sales Felício
Kristie Helene Novoa Durante
Liana Pires Velazquez Bogomoletz
Luci Castor de Abreu
Luciana Pierry Cardoso
Luiz de Campos Junior
Magali do Nascimento de Paula
Marcia Regina Victoriano
Márcio Oliveira de Castro Coelho
Margarida (Magui) Maria Pompéia Gioielli
Maria Aparecida Guedes Monção
Maria Aparecida (Cidinha) Ouvinhas Gavioli
Maria Cláudia Viera Fernandes
Maria Lúcia Reis de Vilhena
Maria Lucinda C. R. Morais
Maria Luiza Gaspar Bobozzi
Maria Regina Potenza
Maria Teresa da Silva Teixeira Pinto
Maria Veridiana (Veri) Campos
Marina da Silveira Rodrigues Almeida
Mila Zeiger Pedroso Domingues
Naíme Silva
Natália Godoy Rodovalho
Patrícia Lia Vieira
Patrícia Regina Infanger Campos
Paula Cristina de Melo Futada
Priscila de Azevedo e Souza Venosa
Regina Helena Gammardella Rizzi
Regina Inês da Silva Bonança
Regina Maria Oliveira Monteiro
Renata Cristina F. da Silva
Rita Foelker
Romulo Pinto Andrade
Rosa Cleide Marques
Rosângela (Tia Rô) Magda de Oliveira Souza
Samuel Chaves
Simone Alcântara Freitas
Simone Alonso Kishiue
Simone Simões
Solange Aparecida Emílio
Suely Costa
Tatiane Rosa Rodrigues
Teresinha (Terê) Bueno Penteado
Thiago Baptistella Cabral
Valéria Araújo Drigo
Valquiria Regina Fagundes
Zilda Rodrigues Ferré

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